Economia

Conflito na Ucrânia agrava cenário inflacionário global

Equipe econômica do C6 Bank aponta os fatos mais importantes da semana (7/3-11/3)


Confira as principais notícias da semana, segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank, liderada pelo economista-chefe Felipe Salles.

Internacional

Estados Unidos: inflação acelera mais uma vez

A inflação ao consumidor (medida pelo índice CPI) subiu 0,8% em fevereiro. Entre os itens que mais contribuíram para o aumento, a gasolina foi o principal, subindo 6,6% e sendo responsável por quase um terço do aumento no índice. Em 12 meses, a inflação acumula alta de 7,9%. O núcleo do CPI (exclui alimentos e energia) também registrou aumento de 0,5% no mês e 6,4% em 12 meses. Houve crescimento generalizado de preços, reforçando o diagnóstico de que a inflação pode ser mais persistente do que o esperado.

O presidente Joe Biden proibiu as importações americanas de combustíveis fósseis russos, inclusive de petróleo. A medida está em linha com outras restrições já aplicadas pelo país como resposta a invasão russa à Ucrânia. Os Estados Unidos têm baixa exposição aos combustíveis russos, mas o preço internacional da commodity reagiu em um mercado de oferta restrita.

O índice de otimismo das pequenas empresas medido pelo NFIB diminuiu 1,4 ponto para 95,7 em fevereiro, permanecendo abaixo do nível pré-pandemia. As pequenas empresas continuam sinalizando dificuldades na contratação de trabalhadores, pressões de preços e salários.

O mercado de trabalho segue aquecido. O número de vagas de emprego em aberto alcançou 11,3 milhões em janeiro, de acordo com dados do relatório “Job Openings and Labor Turnover Survey” (Jolts), permanecendo próximo do recorde da série alcançado no mês anterior. A taxa de pedidos de demissão segue elevada. Ambos os indicadores sugerem uma crescente dificuldade das empresas em contratar funcionários.

Os pedidos de seguro-desemprego permanecem baixos, em 227 mil, na semana encerrada em 5 de março, segundo o Departamento do Trabalho. O indicador segue tendência de queda e é mais um a corroborar o aquecimento do mercado de trabalho.
Os números de novos casos de covid-19 e de hospitalizações continuam diminuindo no país.

Europa: conflito segue intenso

O conflito entre Rússia e Ucrânia chega ao décimo sexto dia e permanece intenso. Cidades ao sul, norte e nordeste da Ucrânia, mais próximas à fronteira, têm sido bombardeadas. Combates se aproximam da capital Kiev. Nesta semana, houve a primeira reunião entre os ministros das relações exteriores dos dois países desde o início do conflito, sem muito progresso. A Rússia mantém seus objetivos de uma desmilitarização e neutralidade da Ucrânia, exigindo que o país retire de sua constituição as ambições de entrada na Otan e na União Europeia. Putin também exige que a Ucrânia reconheça a Criméia como território russo e a independência das regiões separatistas de Donbass.

As sanções continuam sendo impostas à Rússia. O Reino Unido anunciou que deixará ao longo do ano de importar petróleo do país. A Europa, por enquanto, mantém suas importações de energia, mas a Comissão Europeia delineou um plano para que o bloco reduza sua dependência de gás russo em dois terços ainda este ano. O presidente russo, em resposta às sanções que vem sofrendo, emitiu uma ordem para banir exportações de alguns produtos como equipamentos médicos e máquinas agrícolas, deixando energia de fora da lista.

O preço das commodities segue com alta volatilidade. O gás natural e o petróleo (Brent) cederam aproximadamente 35% e 7,5%, respectivamente, desde sexta passada até 10 de março, depois de altas expressivas na semana anterior. Adicionalmente, o trigo diminuiu cerca de 20% no período.

O Banco Central Europeu (BCE) foi mais agressivo que o esperado ao decidir acelerar a redução das compras de ativos sobre o programa convencional (APP, na sigla em inglês). O banco anunciou que o fim do programa pode ocorrer no 3T22, se os dados corroborarem com a expectativa de inflação firme no médio prazo. As taxas de juros permaneceram inalteradas, mas o comunicado do banco afirma que ajustes devem ocorrer algum tempo depois do fim do APP e serão graduais. Além disso, o BCE reiterou o fim do programa emergencial de compra de ativos (PEPP, na sigla em inglês) para o fim deste mês, conforme anteriormente anunciado. O banco revisou para baixo sua projeção de crescimento para PIB em 0,5 pp. em 2022, passando para 3,7% e aumentou sua projeção de inflação em quase 200 pontos base para 5,1%.

No Reino Unido, os dados de atividade vieram melhor que o esperado, sinalizando uma recuperação após a redução de casos da variante ômicron. O PIB mensal subiu 0,8% em janeiro frente ao mês anterior. Houve aceleração no crescimento da produção industrial e serviços.

Os casos de covid-19 continuam baixos tanto no Reino Unido quanto na área do euro. As hospitalizações também caíram. Na Alemanha, os casos têm aumentado, mas o país se prepara para diminuir a maior parte das restrições a partir de 20 de março. Segundo o ministro da saúde, a Alemanha está adotando postura similar à de seus vizinhos europeus, que também diminuíram restrições quando ainda tinham casos elevados, em razão da variante ômicron apresentar sintomas mais leves do que cepas anteriores.

China: meta de crescimento desafiadora

O primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, anunciou a meta de crescimento para o ano em torno de 5,5%, ficando abaixo do objetivo do ano anterior de mais de 6% e sendo a menor em mais de três décadas. Apesar da redução, a meta é desafiadora em razão de um ambiente externo menos favorável, de um ambiente interno que sente a desaceleração do setor imobiliário e de um consumo doméstico moderado, afetado em parte pela estratégia de covid zero.

A China deve ser menos afetada pelo conflito do que as economias ocidentais. O país tem mantido uma postura neutra, sua exposição comercial aos países em conflito é baixa e não foram impostas sanções aos produtos russos. Dito isso, a China pode ser afetada indiretamente pelo menor crescimento global, que pode diminuir suas exportações, e pelo aumento de preços de commodities no mercado internacional.

O crescimento do estoque de crédito agregado moderou para 10,2% em fevereiro comparado ao mesmo mês do ano anterior, depois de quatro meses seguidos de aceleração. O fluxo de crédito agregado diminuiu para RMB 1,19 trilhão, ficando abaixo do esperado e menor do que fevereiro do ano anterior. Houve queda dos empréstimos bancários, principalmente de médio e longo prazo às famílias – amplamente relacionados a hipotecas – depois de vendas de imóveis mais fracas no início do ano.

A balança comercial superou as expectativas e alcançou superávit de US$ 115,9 bilhões em janeiro-fevereiro. As exportações cresceram 16,3% em comparação com o mesmo período do ano anterior, em razão de um crescimento sólido para os principais mercados – Estados Unidos, União Europeia e Ásia emergente, enquanto as importações subiram 15,5%, abaixo das expectativas, havendo modesta recuperação de importações de minério de ferro, o que sugere uma melhora em investimentos de infraestrutura.

Os casos de covid estão subindo na China continental, mas permanecem concentrados em algumas províncias. Em razão da política de tolerância zero ao vírus, o aumento de casos na província de Jilin, no norte do país, está levando a construção de hospitais temporários e a capital da província, de 9 milhões de habitantes, foi colocada em lockdown. Xangai anunciou suspensão temporária de aulas presenciais. Em Hong Kong, a chefe do executivo suspendeu a testagem em massa que deveria ocorrer este mês. O aumento do número de casos na cidade continua pressionando o sistema de saúde e lockdowns parciais podem ocorrer.

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Brasil

Pesquisa Focus: expectativas de inflação seguem subindo

A projeção para o IPCA apresentou alta para 2022 (de 5,6% para 5,65%) e ficou estável em 3,51% para 2023. O número esperado para o PIB subiu para 2022 (de 0,3% para 0,42%) e ficou estável em 1,5% para 2023. A taxa Selic não apresentou mudanças para o final deste ano (12,25%), mas subiu para o final do ano que vem (de 8,0% para 8,25%). As projeções estão no Boletim Focus, relatório do Banco Central que reúne a expectativa das instituições financeiras em relação aos principais indicadores econômicos do país.

Atividade: resultado da indústria e varejo corroboram perspectiva de PIB fraco em 2022

A produção industrial do mês de janeiro retraiu 2,4% frente ao mês anterior. Olhando para os componentes da pesquisa, a queda foi generalizada, atingindo todas as categorias econômicas. O indicador de difusão, que mede o percentual de setores que tiveram variação positiva no mês, registrou índice baixo. A indústria deve continuar contribuindo negativamente para o PIB em 2022 em função da desaceleração global e da política monetária contracionista. O conflito na Ucrânia pode atrapalhar ainda mais o desempenho da indústria.

Segundo a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), as vendas no comércio varejista ampliado – que inclui veículos e construção civil – caíram 0,3% em janeiro na comparação com o mês anterior. Na composição, hipermercados vieram abaixo da nossa projeção, mas foram compensados pela surpresa positiva em veículos. Para frente, vendas no varejo devem seguir com desempenho fraco até o final do ano, influenciadas pelo baixo crescimento da economia, inflação elevada (que reduz a renda real) e alta das taxas de juros.

Combustíveis: Petrobrás eleva preços e Congresso aprova mudança no ICMS

A Petrobrás anunciou alta de 19% no preço da gasolina e de 25% para o diesel. A medida pressiona o IPCA de curto prazo. Acreditamos que o impacto inflacionário será parcialmente revertido via subsídio e/ou alteração em impostos.

O Projeto de Lei Complementar dos combustíveis (PLP11/2020) foi aprovado no Senado e, em seguida, na Câmara. O projeto trata, principalmente, da mudança na cobrança de ICMS dos combustíveis e permite isenção do PIS/Cofins sobre o diesel. Essa isenção tem um impacto fiscal de R$ 19,5 bi por ano e não exige medidas compensatórias. As mudanças de ICMS ainda precisam ser regulamentadas pelos governos estaduais para serem efetivadas.

O Projeto de Lei dos combustíveis (PLP1472), que trata do fundo de estabilização de preços, foi aprovado no Senado, mas deve enfrentar resistência na Câmara. O projeto também inclui a criação de um auxílio gasolina (custo fiscal de R$ 3 bi por ano) que, caso aprovado, deve passar a valer apenas no ano que vem.

Equipe Econômica C6 Bank

Felipe Salles Head
Claudia Moreno Head Brasil
Claudia Rodrigues Head Internacional
Felipe Mecchi Internacional
Heliezer Jacob Brasil

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