Economia

Relatório mensal: Desaceleração global

Equipe econômica do C6 Bank, liderada por Felipe Salles, divulga projeções


C6 Bank Felipe Salles. Foto: Germano Lüders

A equipe econômica do C6 Bank, liderada por Felipe Salles, divulgou nesta quinta-feira (09) mais uma edição do seu relatório macroeconômico. Confira, abaixo, a íntegra do documento:

Resumo

Internacional

A economia global caminha para um cenário de crescimento baixo, mas não uma recessão. O principal motivo é o aperto monetário que vem sendo implementado em vários países, visando reduzir a inflação. Adicionalmente, existe a dificuldade no restabelecimento das cadeias de produção, que estão sendo afetadas pelo longo conflito na Ucrânia e por medidas restritivas na China resultantes de um novo surto de Covid-19 em abril e maio. A boa notícia é que novos casos diminuíram significativamente e grandes centros econômicos do país já iniciaram uma reabertura.

Nos EUA, restrições de oferta – em particular a dificuldade das empresas em contratar – ainda afetam a atividade e, em um contexto de demanda forte, pressionam a inflação. O aumento nos preços tem sido intenso e generalizado. O cenário internacional também pesa ao pressionar os preços de commodities, como petróleo, resultado de sanções impostas à Rússia após a invasão da Ucrânia. O banco central americano (Federal Reserve – Fed) subiu a taxa de juros em 50 pontos-base na reunião de maio e sinalizou mais aumentos no ano. Além disso, o Fed iniciou a redução de seu balanço patrimonial este mês. Face ao enxugamento de liquidez, o dólar vem se fortalecendo frente às demais moedas.

A área do euro, região mais afetada pelo conflito em razão do maior laço comercial com os países envolvidos, tem mantido uma atividade resiliente no 2T22. No entanto, preços altos de energia e falhas nas cadeias globais de produção devem continuar afetando uma recuperação da economia no curto prazo. Pressões inflacionárias seguem elevadas e o Banco Central Europeu (BCE) confirmou o fim das compras de ativos para o início de julho e a intenção de começar uma trajetória de aumento de juros a partir da próxima reunião.

A China teve uma redução expressiva no número de novos casos de Covid-19, depois de surto que atingiu um pico em abril. O lockdown em Xangai, maior cidade chinesa e centro comercial e financeiro do país, terminou no início deste mês. Indicadores sinalizam uma recuperação gradual da atividade industrial e de serviços na China. O governo tem mostrado preocupações com o crescimento da economia e tem anunciado medidas para promover uma estabilização.

Brasil

As condições que possibilitaram o sólido crescimento do PIB de 4,6% para 2021 não devem estar presentes este ano. Entretanto, os dados recentes de atividade têm vindo fortes e corroboram nosso cenário de crescimento do PIB de 1,5% em 2022. Para 2023, acreditamos que o PIB deve continuar desacelerando devido principalmente à política monetária contracionista, que deve se estender até o ano que vem.

O resultado primário do setor público consolidado de abril voltou a surpreender positivamente, mas a perspectiva de crescimento baixo e de aumento dos gastos do governo continuam sugerindo deterioração em 2022, em relação a 2021. Mantivemos nossa projeção de resultado primário de superávit de 0,5% do PIB para 2022 e de 0,0% do PIB para 2023. Entretanto, projetos que tramitam no Congresso têm potencial de impactar negativamente a arrecadação neste ano e no próximo.

Em nossa visão, a taxa de câmbio nos patamares atuais, historicamente elevados, reflete riscos fiscais. A alta das commodities deve compensar parcialmente a pressão no câmbio decorrente da piora da trajetória da dívida líquida do governo. No entanto, a valorização do dólar globalmente tem pressionado o real. Mantivemos nossa projeção para taxa de câmbio de R$ 5,20 no fim de 2022 e de R$ 5,60 ao final de 2023.

A surpresa para cima na inflação corrente, alta nos preços de commodities no mercado futuro além de uma folga menor do que projetávamos no mercado de trabalho, nos levariam a elevar nossas projeções de IPCA. Entretanto, estão tramitando no Congresso Nacional diversos projetos de lei e, inclusive, propostas de emendas à Constituição que podem reduzir os preços de serviços de telecomunicação, energia elétrica e, principalmente, combustíveis. Nossa projeção de 8,4% para o IPCA de 2022 e de 5,2% para o IPCA de 2023 permanecem, por ora.

O Copom sinalizou como provável uma extensão do ciclo com um ajuste de menor magnitude para a próxima reunião. Na nossa visão, essa comunicação é condizente com um cenário de uma alta adicional de 50 pontos-base na reunião de junho, elevando a taxa Selic ao nível de 13,25%, finalizando o ciclo de ajuste monetário. A Selic deve permanecer neste patamar até pelo menos a metade do ano que vem. Para 2023, nossa expectativa é que o ciclo de afrouxamento monetário comece apenas no final do ano devido à piora da perspectiva de inflação. Mantivemos nossa projeção para a Selic no final de 2023 em 12,25%.

Panorama Global

EUA

A economia americana deve ter uma expansão moderada no 2T22. De acordo com o índice de gerente de compras (PMI na sigla em inglês), divulgado pela S&P Global, a atividade tanto no setor de manufaturas quanto serviços desacelerou, mas permanece em nível elevado. As empresas continuam reportando dificuldades de contratação de trabalhadores e há pressões crescentes de preços e salários, com mais evidências de aquecimento no mercado de trabalho.

A inflação permanece alta. O índice desacelerou recentemente em razão de queda no preço de energia depois de forte aumento em março, mas medidas de núcleos de inflação mostram uma alta generalizada dos preços, causada por fatores estruturais relacionados aos fortes estímulos fiscais e monetários implementados e à dificuldade das empresas de produzirem para fazer frente à demanda que segue elevada. Somando-se a isso, a crise externa deve manter a inflação pressionada nos próximos meses. O conflito na Europa, além de provocar forte aumento no preço de commodities, levou a um novo choque na cadeia produtiva global, que não chegou a se restabelecer totalmente do impacto da pandemia. Portanto, em nossa visão, a inflação deve permanecer elevada e persistente.

O banco central americano (Federal Reserve – Fed) subiu a taxa de juros em 50 pontos-base em maio, conforme esperado, definindo um novo intervalo de juros entre 0,75% e 1% ao ano. Este foi o segundo aumento consecutivo da taxa e o primeiro de 50 pontos-base desde 2000. Na ata da reunião, o texto mostrou que a decisão foi unânime e que a maioria dos membros julgou que mais dois aumentos de mesma magnitude podem ser apropriados nas reuniões seguintes em razão de um mercado de trabalho forte e inflação elevada. Todos os membros também apoiaram o início da redução do balanço patrimonial a partir deste mês, de forma gradual, alcançando um ritmo máximo de redução dos ativos em US$ 95 bilhões por mês em setembro.  As condições financeiras vêm se tornando mais apertadas, indicando desaceleração da atividade mais à frente.

Europa

O conflito entre Rússia e Ucrânia entrou no quarto mês. A Rússia avançou no leste do país e conseguiu tomar boa parte da região de Luhansk. A Ucrânia mostra resistência e segue recebendo ajuda militar, financeira e humanitária do ocidente. Negociações diretas entre Rússia e Ucrânia estão praticamente paradas. A Ucrânia afirmou que não entregará qualquer território para um cessar-fogo. O conflito se estende por mais tempo do que era previsto.

A União Europeia aprovou o sexto pacote de sanções à Rússia, que inclui o fim das importações de petróleo transportado por navio ao longo dos próximos 6 meses, tornando o mercado internacional mais apertado. Por outro lado, a Organização dos Países Produtores de Petróleo e aliados (OPEP+) decidiu aumentar os incrementos mensais de produção da commodity em 50% em julho e agosto. Entretanto, um alívio na oferta não deve acontecer porque a organização não tem cumprido suas metas de produção. A produção da OPEP segue uma lenta recuperação, depois de ter sido cortada em meados de 2020 em razão da queda na demanda provocada pela pandemia.

Os preços de energia, metais e grãos estão com alta volatilidade. O gás natural cedeu e o preço já está abaixo do nível anterior ao conflito, em razão de uma menor incerteza quanto ao fornecimento de gás russo para os maiores importadores europeus, Alemanha e Itália, e maiores importações de gás natural liquefeito pela Europa. Já o petróleo acumula alta de 27,5% desde o início do conflito (23/02) até 8 de junho, pressionado pelas sanções ao petróleo russo, pelo limitado fornecimento da OPEP+ e pela retomada do consumo global. Adicionalmente, o trigo também subiu cerca de 22,5% no mesmo período, colocando pressão adicional em um ambiente de inflação já elevada. A Ucrânia tem buscado junto às Nações Unidas uma solução para o escoamento de grãos por seus portos no Mar Negro, bloqueados pela guerra, mas por enquanto nenhum progresso foi alcançado. Novas sanções podem ser impostas à Rússia, trazendo impactos adicionais nos preços e na atividade.

A atividade segue resiliente. O setor industrial deu sinais de desaceleração na margem, mas o PMI segue acima de 50 – indicando expansão. A região tem sofrido com gargalos na cadeia de produção resultantes do conflito na Ucrânia e de lockdowns na China.

A inflação alcançou novo recorde em razão da forte alta no preço de energia e alimentos. O núcleo da inflação também atingiu novo recorde com um aumento maior e generalizado nos preços de bens, refletindo restrições de oferta e repasse de preços de insumos, em particular, energia. No mercado de trabalho há sinais de aperto com a taxa de desemprego permanecendo no menor nível da série pelo terceiro mês consecutivo. Também foram observados aumentos mais intensos de salários no 1T22, reforçando a dificuldade de empresas em contratar funcionários.

O Banco Central Europeu (BCE) anunciou o fim do programa de compra de ativos para 1 de julho e indicou que um primeiro aumento de juros, de 25 pontos-base, deve ocorrer na próxima reunião, em julho. O BCE  sinalizou que mais aumentos devem seguir ao longo do ano e suas magnitudes dependerão da evolução de suas projeções de inflação. O Banco revisou suas projeções de inflação para cima, que ultrapassaram a meta de 2% no médio prazo. As projeções de crescimento econômico também foram alteradas, diminuindo para 2,8% em 2022 e para 2,1% em 2023.

China

O surto de Covid-19 provocado pela variante ômicron diminuiu consideravelmente no país, passando de uma média de 6 mil novos casos na primeira semana de maio para 200 recentemente. A cidade de Xangai concentrou o maior número de casos e permaneceu em lockdown por dois meses. Uma reabertura gradual teve início este mês e até o fim de junho espera-se uma volta à normalidade. A capital Pequim também conseguiu reduzir o número de casos, tem diminuído restrições à mobilidade e tem permitido a reabertura de serviços, como restaurantes e shoppings. O surgimento de casos fora de áreas de isolamento ainda mantém ambas as cidades em alerta, com testagens em massa frequentes em algumas áreas. Mais recentemente ocorreu um surto na Mongólia Interior, o que tem provocado lockdowns em distritos locais. A política de Covid zero permanece, o que significa que mesmo um leve aumento no número de casos em qualquer localidade deve ser tratado com rigor.

A China deve ser menos afetada pelo conflito na Ucrânia do que as economias ocidentais. O país tem mantido uma postura neutra, sua exposição comercial aos países em conflito é baixa e não foram impostas sanções aos produtos russos. Dito isso, a China pode ser afetada indiretamente pelo menor crescimento global, que pode diminuir suas exportações, e pelo aumento de preços de commodities no mercado internacional.

Os investimentos desaceleraram nos quatro primeiros meses do ano, com moderação em manufaturas, que seguem apoiadas por políticas públicas e exportações sólidas, e desaceleração em obras de infraestrutura. Já investimentos no setor imobiliário seguem fracos, possivelmente por menor confiança de potenciais compradores com empresas do setor. As mais alavancadas seguem sofrendo restrições de crédito, com impacto no cumprimento de suas obrigações financeiras e na realização de novos empreendimentos, o que tem afetado negativamente o crescimento da economia chinesa no curto prazo. Mesmo as mais saudáveis enfrentam dificuldades nas vendas. Construções e vendas de imóveis seguem fracas e os preços têm diminuído em várias cidades do país.

Os indicadores de atividade industrial e de serviços, reportados pelos índices de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês), calculado pelo Escritório Nacional de Estatísticas (NBS, na sigla em inglês), melhoraram em maio, sinalizando uma recuperação gradual, depois de uma forte queda em abril. A melhora do quadro de Covid-19 no país, com o fim do lockdown em Xangai e menores restrições também em Pequim, contribui para retomada da economia nos próximos meses.

O governo chinês tem mostrado sinais de preocupação com o crescimento econômico em 2022. O primeiro-ministro, em evento para milhares de representantes dos governos locais, pediu mais agilidade na implementação do plano econômico definido para o ano. O Conselho de Estado anunciou um pacote de 33 medidas para apoiar pequenas e médias empresas, impulsionar a demanda e reduzir o desemprego; o Conselho também pediu aos bancos estatais uma linha de crédito de US$ 120 bilhões para projetos de infraestrutura. O banco central chinês reduziu a taxa de juros de 5 anos, usada como referência para hipotecas, e tem facilitado condições de financiamento de imóveis para os que ainda não possuem moradia própria, medidas que podem impulsionar vendas e servir de suporte ao setor imobiliário.

A volta à normalidade após o surto recente de Covid-19, combinada com fortes estímulos monetários e fiscais, deve levar a um crescimento sólido da economia chinesa na segunda metade do ano.

Os PMIs de manufaturas da maioria dos países do leste asiático, excluindo China – importantes elos na cadeia de suprimento global – continuaram sinalizando expansão em maio, porém moderada.

Cenário Doméstico

Atividade

O PIB brasileiro cresceu 4,6% em 2021, após cair 3,9% em 2020, sob forte impacto da pandemia. A progressiva reabertura da economia, possibilitada pelo avanço da vacinação, permitiu a retomada do setor de serviços, particularmente os prestados às famílias. O ano de 2021 apresentou forte crescimento. A elevação do número de casos de Covid-19 no início de 2022 teve pouco impacto na atividade e o PIB cresceu 1% no 1T22. Os efeitos da pandemia sobre a economia estão sendo superados.

Para o PIB do 2T22 esperamos crescimento de 1,5% frente ao trimestre anterior, com alta em serviços, indústria e, principalmente, agropecuária. No entanto, os trimestres seguintes devem apresentar crescimento baixo ou negativo.

As condições que possibilitaram o sólido resultado para 2021 não devem estar presentes este ano. A taxa Selic em território contracionista já afeta a atividade. O crescimento global deve impulsionar menos a atividade doméstica. As restrições à mobilidade na China e o recente conflito geopolítico intensificaram a desaceleração do crescimento global. Por outro lado, os efeitos do conflito na Ucrânia na atividade doméstica estão se mostrando menos intensos do que o esperado. Não há, até o momento, um movimento grande de aversão ao risco (que afetaria condições financeiras) e a alta nos preços de commodities tem, inclusive, beneficiado o país. Os dados recentes de atividade econômica têm vindo consistentemente fortes, corroborando nosso cenário de projeção de crescimento de 1,5% ou até mais para 2022. Apesar do PIB do 1T22 ter vindo abaixo do que projetávamos, mantivemos nossa projeção para o ano devido ao desvio ter sido em categorias menos correlacionadas com a atividade econômica, como por exemplo o setor agropecuário. Para 2023, entretanto, acreditamos que o PIB deve continuar desacelerando devido principalmente à política monetária contracionista, que deve se estender até o ano que vem. Mantivemos estável nossa projeção de crescimento de 0,5% para 2023.

A taxa de desemprego surpreendeu positivamente pela décima primeira vez consecutiva em abril (ao vir mais baixa do que o esperado). Ela segue em patamar elevado, mas já não indica um hiato tão aberto quanto víamos no ano passado (10,1% na série com nosso ajuste sazonal). O crescimento da economia até agora foi suficiente para levar a taxa de desemprego para níveis próximos ao neutro. No entanto, com a perspectiva de crescimento abaixo do potencial para este e o próximo ano, a taxa de desemprego deve permanecer elevada.

gráfico PIB

Fiscal

O resultado primário do setor público consolidado encerrou o ano de 2021 positivo em 0,7% do PIB. Foi o primeiro superávit primário desde 2013. Para 2022, a perspectiva de desaceleração do crescimento e da inflação, combinada com uma aceleração dos gastos, indica uma leve piora do resultado das contas públicas em relação ao ano anterior. As divulgações dos resultados fiscais recentes melhores do que o esperado refletem, na nossa visão, uma inflação persistentemente mais alta e preços de commodities elevados que fortalecem a arrecadação. Em particular, o alto preço dos combustíveis impulsiona o resultado fiscal dos governos regionais, que acumulam no ano superávit de R$ 62,3 bi. Por outro lado, existem várias propostas (dentre elas o PLP 18/22 e a zeragem de alguns impostos federais e estaduais sobre combustíveis) que tem o potencial de afetar negativamente a arrecadação em cerca de R$ 80 bi (0,8% do PIB) este ano e R$ 160 bi (1,6% do PIB) em 2023, caso sejam prorrogadas. Mantivemos, por ora, nossa projeção para o resultado primário do setor público consolidado de superávit de 0,5% em 2022 e de 0,0% para 2023 em função da alta incerteza a respeito do que será aprovado.

Mantivemos também nossa projeção de dívida líquida em 58,6% do PIB para 2022. A dívida deve continuar subindo em 2023 puxada pela perspectiva de juros elevados e pelo baixo crescimento do PIB. Nossa expectativa para dívida líquida de 2023 se manteve em 61,1% do PIB ao final do ano. No entanto, a incerteza fiscal aumentou e vemos uma deterioração das perspectivas de longo prazo para a sustentabilidade das contas públicas.

gráfico dívida liquida

Setor externo

Acreditamos que o atual nível do câmbio em patamares historicamente elevados esteja alinhado com os fundamentos, principalmente considerando os riscos fiscais. A taxa de câmbio possui forte correlação com a dívida líquida do setor público.

Continuamos acreditando que a piora da trajetória da dívida líquida do governo e o fortalecimento do dólar frente às demais moedas, decorrente da retirada de estímulos monetários nos EUA, são fatores que devem levar a uma depreciação do real. Mantivemos nossas projeções de taxa de câmbio em R$ 5,20 para o final de 2022. Para 2023, o câmbio deve continuar a registrar depreciação, pelos mesmos motivos citados acima. Projetamos a taxa de câmbio em R$ 5,60 ao final de 2023.

Com relação às contas externas, as importações em patamar elevado, apesar da taxa de câmbio depreciada, levarão a um saldo negativo das transações correntes para 2022. A perspectiva de desaceleração global resultou em um déficit ligeiramente mais elevado. Nossa projeção para o resultado da conta corrente é de US$ -45 bi em 2022. Para 2023, o câmbio mais depreciado deve reduzir o déficit. Esperamos déficit de U$ 28 bi.

gráfico conta corrente

Inflação

A forte elevação de preços em 2021 de 10,1% impacta a inflação deste ano. Acreditamos que, passados os choques recentes, a inflação irá desacelerar. Vários fatores nos levariam a subir nossas projeções ao longo deste ano. Primeiro, apesar de continuar em patamar elevado, revisamos para baixo nossa projeção de taxa de desemprego para o final do ano em função de dados melhores do que projetávamos. A inflação de serviços deve continuar elevada à frente em função da inércia inflacionária. Segundo, a inflação corrente tem se mostrado novamente mais persistente do que as previsões. Indicadores de preços ao consumidor, coletas de preços e preços no atacado têm vindo acima do esperado. Terceiro, os preços no mercado futuro de commodities apresentaram novas elevações (combustíveis, grãos e metais).

Entretanto, estão tramitando no Congresso Nacional diversos projetos de lei e, inclusive, propostas de emendas à Constituição que podem reduzir os preços de serviços de telecomunicação, energia elétrica e, principalmente, combustíveis. Estimamos um potencial impacto no IPCA de cerca de 300 pontos-base, caso as propostas sejam aprovadas na sua integralidade. Aguardaremos sinais mais concretos sobre o que será aprovado para revisarmos nossas projeções.  Desta forma, mantivemos por ora nossa projeção de IPCA em 8,4% em 2022 e em 5,2% para 2023.

gráfico ipca

Política monetária

O Copom (Comitê de Política Monetária) iniciou um ciclo de alta de juros em março do ano passado. Na última reunião, em maio, o Comitê elevou a taxa Selic em 100 pontos-base, para 12,75%, e sinalizou como provável uma extensão do ciclo com um ajuste de menor magnitude para a próxima reunião.

Na ata, o Copom ressaltou que “o ciclo de aperto monetário corrente foi bastante intenso e tempestivo e que, devido às defasagens de política monetária, ainda não se observa grande parte do efeito contracionista esperado”, sinalizando que gostaria de parar para observar os efeitos das políticas já adotadas. De fato, na nossa visão, a manutenção da taxa Selic em patamares significativamente contracionistas por um período prolongado seria mais efetiva para trazer a inflação à meta do que elevações adicionais de juros.

As projeções de inflação do BCB no cenário de referência, no qual considera agora preços de petróleo do mercado futuro, vigentes na semana anterior à reunião do Copom de maio, até 2022, situavam-se em 7,3% para este ano e em 3,4% para o próximo ano (ligeiramente acima da meta de 3,25%). Desde a última reunião, tivemos algumas alterações no cenário prospectivo para a inflação. Houve leve apreciação da taxa de câmbio, passou de 4,95 para 4,82, leve alta para a taxa de juros projetada pelo Boletim Focus para o final de 2023 (passou de 9,25% para 9,75%) e mais importante, uma alta da projeção de IPCA para este ano (passou de 7,89% para 8,89%). A inflação corrente elevada e persistente deve levar o comitê a decidir por um ajuste de 50 pontos-base na reunião de junho, conforme tinha sinalizado provável. Entretanto, os projetos em tramitação no Congresso podem ter impacto significativo na inflação de 2022 e consequentemente na de 2023 (via inércia). Diante desse cenário de incerteza, acreditamos que o comitê deve optar por deixar em aberto sua atuação na reunião seguinte.

Vale ressaltar que a partir da reunião de agosto, o BCB deve estender seu horizonte relevante de política monetária e passar a olhar também para o ano de 2024. Como, nos modelos do BCB, as projeções para este ano (apresentadas no Relatório de Inflação de março – 2,4% no cenário de referência e 2,3% no cenário alternativo) se encontram abaixo da meta de 3%, entendemos que haveria pouco espaço para fazer elevações de juros a partir do segundo semestre.

Em resumo, acreditamos que o cenário é condizente com uma alta adicional de 50 pontos-base na reunião de junho, elevando a taxa Selic ao nível de 13,25%, finalizando o ciclo de ajuste monetário. A Selic deve permanecer neste patamar até pelo menos a metade do ano que vem. Para 2023, nossa expectativa é que o ciclo de afrouxamento monetário comece apenas no final do ano devido à piora da perspectiva de inflação.

gráfico selic

Projeções macroeconômicas

 2019202020212022P2023P
Atividade     
Crescimento Real do PIB1,2%-3,9%4,6%1,5%0,5%
PIB Nominal (R$ bi)7.3897.4688.6799.88210.718
Fiscal     
Resultado Primário (% PIB)-0,8%-9,4%0,7%0,5%0,0%
Dívida Líquida (% PIB)54,7%62,5%57,2%58,6%61,1%
Dívida Bruta (% PIB)74,4%88,6%80,3%78,4%81,4%
Setor Externo     
R$/US$ (final de período)4,035,205,585,205,60
Balança Comercial (US$ bi)2732361520
Conta Corrente (US$ bi)-65-24-28-45-28
Conta Corrente (% PIB)-3,5%-1,7%-1,7%-2,5%-1,4%
Inflação     
IPCA (Var. a/a )4,3%4,5%10,1%8,4%5,2%
Juros     
Selic (dez)4,50%2,00%9,25%13,25%12,25%
P=Projeção
Fontes: IBGE, BCB, Bloomberg, C6Bank.

Equipe Econômica C6 Bank

Felipe Salles Head
Claudia Moreno Head Brasil
Claudia Rodrigues Head Internacional
Felipe Mecchi Internacional
Heliezer Jacob Brasil

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